Contamina????o humana e tecnologias

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Gilberto Dupas

S??bado, 18 de Agosto de 2007

Uma das amea??as mais graves ?? humanidade neste in??cio de s??culo 21 ?? a degrada????o ambiental decorrente das tecnologias que sustentam as l??gicas da produ????o global. Elementos t??xicos potenciais causadores de doen??as – desde alergias at?? muta????es gen??ticas e c??nceres – est??o no ar, na ??gua, nos alimentos, nas roupas, nos avi??es, nos carros e em lugares insuspeitos de nossas casas.

A revolu????o industrial foi o marco da emiss??o massiva de toxinas, a partir da queima de carv??o e ??leo. Mas hoje h?? in??meros outros agentes perigosos produzidos em escala mundial. David Ewing Duncan, apoiado pela National Geografic e monitorado por Ake Bergman, da Universidade de Estocolmo, utilizou laborat??rio de ??ltima gera????o para testar as subst??ncias potencialmente t??xicas presentes em seu organismo. Um dia ap??s uma refei????o com peixe-espada e atum, a concentra????o de merc??rio em seu sangue havia mais que dobrado; uma relevante presen??a de ftalatos foi atribu??da a um banho com abundante uso de sabonete e xampu; e seus altos n??veis de polibrominatos foram debitados a v??os de longa dura????o. De onde v??m esses “venenos”?

As usinas termoel??tricas que queimam carv??o s??o das principais fontes de contamina????o por merc??rio. Ele ?? lan??ado no ar pelas chamin??s, dispersado pelos ventos e retorna com as chuvas, acumulando-se em lagos, rios e oceanos. Por a????o de bact??rias naturais, transforma-se em metilmerc??rio, que entra na cadeia alimentar via pl??nctons e, a partir da??, chega aos grandes predadores como atum e peixe-espada. J?? os ftalatos d??o flexibilidade a objetos pl??sticos e filmes de embalar alimentos, espessam esmaltes, xampus, lo????es e sabonetes, provocando dist??rbios sexuais em cobaias machos e podendo afetar beb??s. Finalmente, os polibrominatos est??o presentes em cabines de avi??es repletas de revestimentos retardantes de fogo, cortinas e tecidos, colch??es e travesseiros de espuma, assentos de cadeiras e aparelhos eletroeletr??nicos; em doses elevadas eles provocam dist??rbios neurol??gicos em animais de laborat??rio.

Mas h?? in??meros outros res??duos da civiliza????o tecnol??gica contempor??nea que v??m preocupando cientistas e pesquisadores. Evid??ncias e den??ncias mais fortes t??m provocado substitui????es, mas a vida continua sempre mais perto do lucro f??cil do que do “princ??pio da precau????o”. O bisfenol A, contido em garrafas pl??sticas e at?? em mamadeiras, pode penetrar nos l??quidos que abrigam e s??o suspeitos de provocar les??es no f??gado e c??ncer em cobaias. Pesticidas presentes em v??rios alimentos, sabonetes antimicrobianos e coleiras antipulgas podem causar asma e dist??rbios neurol??gicos. Dioxinas ainda s??o detectadas em v??rias atividades industriais, como fabrica????o de certos pap??is e ind??strias qu??micas, penetrando na cadeia alimentar por vegetais, gorduras de herb??voros, peixes e latic??nios; c??ncer e anomalias cong??nitas s??o os seus efeitos poss??veis.

O mais recente “vil??o” ?? o ??cido perfluoroctan??ico. Jeff Nesmith relata estudos realizados por pesquisadores para os Centros para Controle e Preven????o de Doen??as dos EUA apontando-o como prov??vel carcin??geno humano. Ele est?? no sangue de quase todo americano e apareceu em 99% de casos das amostras em cord??o umbilical de beb??s analisados pela Johns Hopkins University, podendo alterar seu peso e o tamanho de sua cabe??a. Esse ??cido ?? subproduto de antiaderentes usados em embalagens de certos alimentos, contaminando-os quando aquecidas; os atuais sacos de pipoca de microondas o liberam centenas de vezes mais do que panelas revestidas e a ind??stria do setor j?? est?? sob press??o.

Doen??as provocadas por toxinas industriais foram observadas durante boa parte do s??culo passado. Algumas de suas tr??gicas conseq????ncias obrigaram a retirada for??ada de in??meras subst??ncias e altera????es de processos de produ????o; mas chama a aten????o que v??rias dessas conseq????ncias s?? tenham sido descobertas muito tempo ap??s a libera????o do seu uso. O pesticida dibromocloropropano esterilizou dezenas de milhares de plantadores de banana, causando tamb??m mortes e milhares de intoxica????es agudas e c??ncer em consumidores de ??leo de arroz, no Jap??o, v??timas de dist??rbios imunol??gicos. Centenas de japoneses e iraquianos morreram ou sofreram les??es do c??rebro por merc??rio consumindo peixes e p??o com gr??os tratados contra mofos. E a dioxina causou dezenas de milhares de casos de c??ncer e diabetes entre soldados e moradores do Vietn??, por conta do desfolhante “agente laranja” lan??ado por tropas norte-americanas. E assim por diante. Mas parece que as li????es n??o foram aprendidas.

O que fazer diante de situa????o t??o complexa e preocupante? Os otimistas afirmam que este ?? o pre??o do “progresso”; para eles, apesar de tudo, a expectativa de vida m??dia da humanidade continua aumentando e os mesmos vetores tecnol??gicos que causam doen??as curam em maior escala do que matam. Eles garantem, ?? Adam Smith, que a busca do lucro abarca o interesse p??blico e que o pr??prio capitalismo encontrar?? maneiras para se auto-regular. J?? os pessimistas pensam que o modelo de desenvolvimento econ??mico baseado nas leis do mercado e no encolhimento do Estado regulador ?? uma selva em que o interesse p??blico ?? subjugado pelo lucro privado; e que caminhamos para uma degrada????o ambiental inexor??vel e para um salve-se quem puder. Balizada por essas duas posi????es radicais, a sociedade contempor??nea vai ter de encontrar caminhos intermedi??rios e solu????es de compromisso para enfrentar o imenso desafio de retomar o controle da dire????o dos vetores tecnol??gicos e administrar os efeitos perversos de nosso sistema de produ????o sobre a sa??de e o bem-estar dos seus membros. Ser?? uma tarefa para gigantes.

Fonte: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20070818/not_imp36762,0.php